18/05 – Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes

Dá a mão pro bicho não entrar

 

Que dia é hoje?

Hoje é 18 de Maio. Diante de um cenário pandêmico mundial, enfrentamos uma grande crise na saúde, economia e política no país, mas vale, em tempo, lembrar que dia é hoje. E, mais especificamente, o que foi esse dia há algumas décadas. Assim como em nosso cenário atual, lembrar de nomes talvez seja mais importante do que se lembrar de números. Números são frios, lógicos, muitas vezes distantes, então, precisamos de histórias. Elas nos conectam!

No dia 18 de maio de 1973, no Espírito Santo, a menina Araceli Cabrera Sanchéz, com apenas 8 anos de idade, foi sequestrada, estuprada, estupidamente violentada e depois morta e carbonizada. Embora esse caso ainda permaneça um mistério, ele tornou visível e latente, o quanto a tolerância e empatia, ainda são características escassas na espécie humana. Qualquer semelhança com os dias de hoje, não é mera coincidência. Apesar de termos alcançado a redução, de forma geral, no índice de violência na história da humanidade, a narrative ainda é cíclica, se repete e ainda precisamos aprender de forma peremptória por aqui.

Gostaríamos de dizer que foi a história de vida da pequena Araceli que se tornou um marco para nós brasileiros, mas foi, na verdade, sua história de morte. Não sabemos qual sua cor preferida, como teria sido seu primeiro beijo, que profissão ela escolheria, não sabemos nada disso porque sua vida foi abruptamente interrompida. Uma infância roubada pelo desejo insano e bestial de alguns humanos.

É simplesmente inaceitável que alguns tipos de comportamentos continuem existindo, principalmente, se levarmos em conta todo o avanço que a revolução científica produziu no acesso as informações e conhecimento na era dita contemporânea. Precisamos nos comprometer e estabelecer prioridade na agenda de ações que acarretem segurança para nossas crianças e adolescentes, para quem sabe, embora cíclica, as histórias de vida de crianças pelo Brasil contem mais que suas histórias de morte ou desaparecimento.

Hoje, 18 de maio, foi institucionalizado como O DIA NACIONAL DE COMBATE AO ABUSO SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES. Declare isso nos lugares de sua atuação!

 

O que é abuso sexual infantil?

De acordo com alguns autores brasileiros, o abuso sexual se configura como uma forma de agressão, que envolve violência física e psicológica em que o abusador, sem consentimento válido, aproveitando-se de sua superioridade sobre a criança e/ou confiança que ela lhe deposita, busca a satisfação sexual, causando nela danos físicos, psíquicos e sociais (Wiliiams e Araújo, 2009). O abuso sexual é considerado um dos maiores problemas de saúde pública em todo o mundo (OMS, 1999). Segundo a professora Lucia Cavalcanti Wiliams, pesquisadora dessa temática, o abuso sexual infantil é, possivelmente, o delito menos denunciado no mundo. Mesmo com os avanços efetuados em torno do tema da sexualidade, essa questão ainda permanece um tabu para a sociedade brasileira, e isso faz com que muitas pessoas, e aqui nos referimos aos humanos em tenra idade, apresentem dificuldades em denunciar abusos sofridos, por medo de represálias, tanto do agressor, quanto de quem escuta a denúncia.

A violência sexual, em geral, se denota pelo abuso e pela exploração sexual. Esse ultimo é um fenômeno que se manifesta através de atividades nas quais os atos sexuais são negociados em troca de pagamento; turismo sexual – comércio sexual em regiões turísticas; pornografia – produção, exibição, divulgação, distribuição, venda, compra, posse e utilização de material pornográfico; e tráfico para fins sexuais – movimento clandestino e ilícito de crianças e adolescentes através de fronteiras nacionais, com objetivo de forçá-los a entrar em situações sexualmente ou economicamente opressoras e exploradoras, para lucro de aliciadores. Todos envolvem obtenção de vantagem do corpo da criança ou do adolescente para fins de mercantilização.

 

O que vem depois do abuso sexual?

O primeiro e maior dano causado a uma criança e/ou adolescente que sofreu um abuso sexual é a propria experiência do abuso. Um misto de falta de entendimento, impotência, estranhamento, desorganização interna e revolta geram uma série de consequências que podem variar em seu nível de gravidade. A magnitude dos sintomas e mudanças que ocorrem na vida da criança vítima de abuso depende de fatores como: proximidade com abusador, tempo de ocorrência do abuso, intensidade e características da violência, e apoio despendido à criança e ao adolescente após a revelação da violência. Os resultantes do abuso se manifestam em curto, médio e longo prazo, e, em grau, abarcam sintomas e mudanças nas áreas cognitiva, emocional, comportamental e social. Algumas das sequelas comportamentais compreendem comportamento hiperssexualizado inapropriado para a referida idade de desenvolvimento, isolamento, choro constante, mudança no padrão de sono, agressões, autolesão, fuga de casa. Na esfera cognitiva e emocional, podem ser observados problemas escolares, de memória, atenção, alteração da circuitaria neural, ideação suicida, baixa autoestima e distorção da autoimagem. Na área física diversas queixas somáticas também podem ocorrer. O abuso sexual é considerado um fator de risco para o desenvolvimento de múltiplas psicopatologias, incluindo depressão, ansiedade, transtorno do estresse pó-traumático, transtorno de personalidade borderline, etc. Vale lembrar que ele pode gerar muita dificuldade no processo identitário do adolescente.

 

Agravantes para as sequelas do abuso

Uma das piores situações que pode acontecer a uma criança ou adolescente abusado é não ser acolhido pelo adulto quando eles compartilham a experiência. Ao ser descredibilizada pelo adulto de referência, isso faz com que a criança seja revitimizada. ¼ das crianças que não contou a situação do abuso foram violentadas em seu quarto, na sua cama, dentro de casa, o que pode nos sinalizar como algumas estruturas familiares corroboram para a perpetuação dos segredos familiares e de violências.  Mais da metade das crianças que sofrem  abuso  não  contam imediatamente, e, por isso, podem estar vulneráveis a sofrer algum tipo de violência novamente. Embora a história e o nome que carregam o 18 de maio, sabemos que a maioria dos casos não ocorre dessa forma, 80% deles se dá no âmbito intrafamiliar e 90% não deixam vestígios de crime. Alguns abusadores podem, inclusive, ter sido violentados e mantidos em sigilo, reforçando a lei do segredo familiar – gerando o ciclo de abusos em várias gerações de uma mesma família, e, assim, encarcerados pelo silêncio.

 

O que você pode fazer?

A fase da infância e adolescência tem uma base biológica, mas só pode ser construída com o aporte social. Seres humanos nascem totalmente dependentes de outros semelhantes, e, aos poucos, se as suas necessidades básicas forem atendidas, eles seguem sua curva de desenvolvimento na linha do tempo. Segundo Neil Postman (1999, p.164), no livro que escreveu intitulado O desaparecimento da infância, “muitos pais e mães perderam a confiança em sua capacidade de criar filhos porque acreditam que a informação e as aptidões que têm para essa tarefa não são confiáveis”, depositando sobre os operadores do direito e profissionais da saúde, assistência e educação a autoridade parental que caberia aos mesmos. Importa aqui relatar que muitos estudos por evidências acreditam, ainda, que a família tenha forte papel a desempenhar para a manutenção saudável e plena desse período da vida. Precisamos nos engajar, resistir nesse lugar de cuidadores e responsáveis, e entender que esse território precisa ser tomado a força, não é fácil ocupar espaços de forma correta e saudável sem ensinamento, mas eles surgem quando tentamos desbravá-los. Entenda a sua responsabilidade e decida agir nessa direção. Seja enquanto pai, mãe, padrasto, tio, tia, avó, professor, médico, psicólogo, assistente social, pastor, padre ou apenas um adulto que tem acesso a crianças. Entender que somos responsáveis pelo bem- estar dos infants é uma premissa para agirmos em seu favor.

Quando se trata de atendimento às necessidades emocionais de crianças e adolescentes, a frugalidade não pode ser a palavra de ordem. Responsabilize-se:

Vamos nutrir a vida de nossas crianças e adolescentes, auxiliando-os a enxergar a própria vida como algo valioso e significativo, dessa forma, mesmo em meio a adversidades, eles conseguirão integralizar os momentos e experiências vividos em algo maior e com sentido. A infância, ao longo das décadas, foi um conceito construído, e, assim sendo, precisa ser lembrado a todo o momento. Não está imutável e nem toda criança tem a garantia de ter uma infância, no que consideramos ser essa fase. Nós, adultos, somos os grandes responsáveis por promover isso a elas. A dramaturga Priscilla Gomes em sua dramaturgia que conta a história de uma menina que sofreu abuso sexual na infância, diz, de forma poética:

 

“- Dá a mão pro bicho não entrar?, Mas, naquela noite, o bicho entrou.”

 

Faça parte da rede de apoio para as crianças e adolescentes. E que, nesse tempo, onde estamos diante de um extraordinário que está se tornando um “novo normal” a ser construído, um mundo pós-pandemia, nossas mãos sirvam para auxiliá- las, abraçá-las, confortá-las, protegê-las e como mãos que lutam pelos direitos dos mais  vulneráveis. Mãos para não deixar nenhum bicho entrar. Estenda a sua!

 

Artigo de autoria de:

Ana Cláudia de Azevedo Peixoto (Professora do Departamento de Psicologia da UFRRJ e Coordenadora do LEVICA – Laboratório de Estudos sobre   Violência   contra   Crianças   e   Adolescentes).   E-mail: claudiaapeixoto@gmail.com e Instagram: @anaclaudiadeazedopeixoto

 

Luana Galoni (Psicóloga pesquisadora no Levica e colaboradora no eixo de Infância e Juventude pelo CRP-RJ). E-mail: luana.luiza.galoni@gmail.com e Instagram: @luanagaloni_

 

Laboratório de Estudos sobre Violência contra Crianças e Adolescentes (Levica/UFRRJ). Instagram: @levicaufrrj E-mail: levicaufrrj@gmail.com

 

Referências:

 

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Serviço de Proteção Social a Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência, Abuso e Exploração Sexual e suas Famílias: referências para a atuação do psicólogo/Conselho Federal de Psicologia. Brasília: CFP, 2009. Disponível em: https://bit.ly/2ThKW3k

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Report of consultation on child abuse prevention. Documento/HSC/PV1/99.1 (29-21 de Março): Genebra:1999.

Postam,N.(1999). O Desaparecimento da infância. Rio de Janeiro: Ed.Graphia. Wiliiams, L. C. A. & Araújo, E.A.C. (2009). Prevenção do abuso sexual infantil. Curitiba: Ed.Juruá.

Wiliiams, L. C. A. & Habigzang, L.F. (2014). Crianças e adolescentes vítimas de violência. Prevenção, avaliação e intervenção. Curitiba: Ed.Juruá, pgs 51-70.

 

Vídeo informativo sobre o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes e cartilha sobre Violência contra Crianças e Adolescentes

 

A docente Ana Cláudia de Azevedo Peixoto também produziu um vídeo informativo sobre a data que esclarece alguns pontos importantes sobre a questão do abuso infantil. Para acessá-lo, clique na imagem abaixo.

18 de maio | Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes

Vídeo sobre o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

 

Também produzida pelo Levica, a Cartilha sobre Violência contra Crianças e Adolescentes para Pais e Cuidadores traz um panorama amplo sobre o assunto e orienta os adultos responsáveis por menores. Acesse gratuitamente a cartilha clicando na imagem abaixo.

 


Postado em 18/05/2020 - 09:32
Skip to content