Existe comida que não seja de verdade?

Boletim sobre Sistemas Populares de Abastecimento Alimentar # 4 (*)

A qualidade da alimentação brasileira foi amplamente discutida nos últimos meses. Os debates foram inspirados por uma nota técnica do governo que questionou a legitimidade da classificação nutricional usada no Guia Alimentar para População Brasileira. Com um sistema que ajuda a identificar comidas processadas e ultraprocessadas, e ensina a discernir o que é uma comida de verdade, o Guia tem gerado incômodo em diversos setores da sociedade que se beneficiam com a desinformação nutricional.

O que é esse tal de Guia Alimentar para a População Brasileira?

Publicado novembro de 2014 pelo Ministério da Saúde, o Guia Alimentar para a População Brasileira é um instrumento que busca promover uma alimentação adequada, saudável e sustentável. De maneira facilitada, ele orienta políticas públicas por todo o país, estabelecendo uma forma inovadora de escolha das refeições. Considerando muito mais do que apenas o valor nutricional, o Guia entende a alimentação em seu contexto cultural, social e político. Também apresenta com clareza a diferença entre alimentos frescos, processados e ultraprocessados e os impactos destes para a saúde da população.

Porém, mesmo em meio a tantas abordagens pioneiras levantadas pelo Guia, em setembro de 2020 foi publicada a Nota técnica de número 42/2020 que solicita a revisão do Guia Alimentar. A nota escrita pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e destinada ao MS critica o uso do sistema de classificação NOVA de alimentos e questiona as bases científicas do Guia e sua relevância internacional.

Diversas organizações se manifestaram contra o requerimento do MAPA. A Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) que reúne pesquisadores, profissionais, estudantes e experimentadores das mais diversas áreas relacionadas à agroecologia, se posicionou em seu site, em defesa do Guia Alimentar para a população brasileira: “É importante registrar que a Nota Técnica […] faz uma análise superficial pautando-se em argumentos pseudocientíficos, leviana, preconceituosa e equivocada do Guia Alimentar, e reforça o não compromisso por parte do governo federal com a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) da população brasileira.”

O que há de novo?

Desenvolvida por uma qualificada equipe de cientistas da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), a classificação NOVA separa os alimentos conforme seu nível de processamento. Assim, simplifica a forma de se entender os alimentos, e auxilia a sociedade na compreensão do que é “comida de verdade”.

Em uma linguagem clara e popular, a divisão NOVA é feita entre 4 categorias: in natura ou minimamente processados (como vegetais, frutas, carnes e ovos); ingredientes culinários (incluindo o sal, açúcar, óleos, gorduras e outros); processados (por exemplo legumes em conserva e frutas em calda); e ultraprocessados (refrigerantes, biscoitos recheados, miojo, etc.).

Uma forma prática de diferenciar alimentos processados dos ultraprocessados é consultar a lista de ingredientes. A presença de muitos itens (geralmente mais de cinco) e nomes pouco familiares, que não são utilizados na culinária caseira (espessantes, emulsificantes, aromatizantes, xarope de glicose, etc.) são um forte indicativo de que esta é uma comida ultraprocessada. Com o uso do Guia a regra é clara e de ouro: “Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados”.

Contudo, as empresas fabricantes desses produtos representam uma grande parcela da indústria alimentar do país. Com o crescente aumento do consumo desses “alimentos” ultraprocessados, elas têm ganhado ainda mais espaço e influência. A Nota Técnica, que solicita “imediata retirada” da classificação, revela claramente o interesse em estimular o consumo desses alimentos nocivos, que repercutem negativamente na saúde das pessoas e do ambiente, em detrimento de uma alimentação com “comida de verdade”.

 

Jennifer Tanaka

Além de falar sobre alimentação em sua página @comermudaomundo, Jennifer Tanaka também compartilha reflexões sobre política e sociedade de uma maneira leve e poética.

É possível conhecer mais da pesquisa dela através do link https://linktr.ee/comermudaomundo

Saiba mais sobre o MPA em mpabrasil.org.br/ e se engaje nesse movimento!

 

 

Comida de Verdade?

Pratos e receitas do Favela Orgânica, por Regina Tchelly

 

“Ah, comida de verdade é aquela que é plantada, colhida e preparada no fogão!” afirma Regina Tchelly, fundadora do Favela Orgânica, um projeto pioneiro com o objetivo de transformar a relação das pessoas com os alimentos. Criado em setembro de 2011 nas comunidades Babilônia e Chapéu Mangueira, na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, a iniciativa ensina a evitar o desperdício e cuidar do ambiente através de cursos de gastronomia alternativa e consumo consciente.

O projeto já levou suas oficinas e palestras para outros estados do Brasil e do mundo, despertando a responsabilidade pela construção de uma sociedade melhor, mais justa e saudável. “Estamos a mercê das indústrias, e cada vez querem ditar o que devemos comer e beber, mas a comida de verdade, a comida saudável é um direito e uma escolha nossa”, argumenta Regina. Utilizando a linguagem do povo, a cozinheira procura mostrar as pessoas que é possível ter uma alimentação saudável fazendo as escolhas corretas.

Justamente nas escolhas é que se inicia a busca por uma melhor alimentação. Para Jennifer Tanaka, nutricionista formada pela USP e também atuante do MPA, Movimento dos Pequenos Agricultores, comer é um ato político. Em sua página do Instagram @comermudaomundo, Jennifer que também é doutoranda e mestre em sociologia rural na UFRRJ, compartilha sua visão sobre alimentos, agricultura, nutrição e impacto social.

Tanaka explica que os prejuízos de uma alimentação ultraprocessada vão muito além da desnutrição individual: “Ela influencia de forma direta na saúde coletiva, gera impactos ambientais negativos, e se utiliza de mão de obra superexplorada para produzir.” A nutricionista também alerta que “ter o selo industrial de saudável ou orgânico não significa ser comida de verdade! Consumir de maneira agroecológica e consciente tem a ver com comprar de pequenos negócios e valorizar a agricultura familiar.”

Esta também é uma preocupação do Guia Alimentar Basileiro, que é o primeiro no mundo a incorporar a necessidade da sustentabilidade. “Ele tem como um dos seus princípios a interdependência entre uma dieta saudável e sistemas alimentares ambientalmente sustentáveis” nos conta a nutricionista. Mesmo assim, ainda há quem questione a validade e a necessidade do Guia e de suas classificações.

“Quem que ganha com isso?” questiona Regina Tchelly “As grandes empresas. Entendermos que estamos em um desgoverno, que não preza pelo Guia Alimentar, nem por uma alimentação orgânica, uma merenda escolar com comida de verdade e que quer só mais industrializados”, comenta inconformada. “Nós só vamos adquirindo mais doenças a longo, médio e curto prazo, e trazendo veneno pra nossa mesa” finaliza a cozinheira.

 

Regina Tchelly

Visite favelaorganica.com.br para conhecer mais sobre o trabalho de Regina Tchelly!

No link https://linktr.ee/Favela_organica é possível adquirir os livros “Da Semente Ao Talo” e “Receitas Ao Ar Livre” e se inscreva no curso online Zero Desperdício, onde Regina ensina maneiras praticas de ter uma cozinha sustentável.

Tchelly também compartilha sua vivência pelo instagram no @favela_organica

 

 

Clique no link a seguir para fazer download da reportagem em PDF: Boletim # 4

 

(*) O boletim é uma realização do projeto de extensão Comunicação e Conscientização e é uma parceria da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e o Movimento dos Pequenos Agricultores.


Postado em 29/10/2020 - 09:48
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