Zoom fatigue: os efeitos do excesso de videoconferências na saúde mental

Batizado em referência a um aplicativo de chamadas de vídeo, fenômeno é mais comum em pessoas em situação de trabalho remoto.

 

O isolamento social imposto pela pandemia do coronavírus exigiu uma adaptação do dia a dia dos brasileiros. Com a maioria das interações sociais restrita ao ambiente virtual há cerca de quatro meses, as plataformas de videoconferência se tornaram a melhor opção para conectar amigos, alunos e professores ou até mesmo colegas de trabalhos que estejam em home office. No entanto, em meio a essa nova realidade, o excesso de reuniões de trabalho por videochamadas tem gerado relatos de exaustão mental cada vez mais recorrentes.

Imagem: Shutterstock.com

Tal exaustão foi batizada de “Zoom fatigue” (ou fadiga do Zoom, em português), em referência a um dos aplicativos de chamadas de vídeo mais populares da atualidade. Apesar do nome, o termo também se aplica às demais plataformas de videoconferência. Para as psicólogas da Coordenação de Atenção à Saúde e Segurança do Trabalho (Casst/UFRRJ), Bianca Janssens e Elen de Léo, a mudança súbita da rotina de trabalho presencial para a remota é uma das principais causas desse novo fenômeno.

“Somos seres sociais, de interação e nossos trabalhos exigem outras pessoas. Na vida presencial, fazemos inúmeras consultas uns aos outros ao longo do dia de modo mais simples do que no trabalho remoto que, sem a presença física e suas expressões, exige marcar horário, definir link de acesso e senha. Isso em si já é trabalhoso e nos ocupa, tornando qualquer interação mais formalizada e com formato de trabalho. Ao fim do dia, algumas pessoas podem ter queixas de cansaço mental intenso, como se tivessem passado o dia inteiro em reunião”, afirma Elen.

Além do excesso de videoconferências, as psicólogas argumentam ainda que o cansaço mental também é potencializado pela falta de comunicação não verbal durante uma reunião online.

“Em uma conversa, o cérebro recebe, reconhece e interpreta dados verbais e não verbais daqueles com quem interagimos, incluindo os cenários de onde se mostram. Nas videoconferências, temos visto as pessoas por uma perspectiva diferente, enquadradas pela tela do computador. Isso faz diminuir, e muito, todas as percepções não conscientes (movimento corporal, tom de voz, expressões faciais) que tínhamos no contato direto, que podem ser comprometidas até pela qualidade da internet. Com isso, manter a atenção voluntária é um grande desafio que faz o cérebro se cansar buscando outros caminhos mentais para todas as formas de comunicação presentes em cada nova plataforma de encontro virtual”, explica Bianca.

Em um estágio inicial, a fadiga do Zoom pode vir acompanhada de irritabilidade, baixa produtividade e perda do humor e da autoestima. Se não forem cuidados, a médio e longo prazo, esses efeitos podem levar a um maior adoecimento físico e emocional causado pela elevação da ansiedade, rebaixamento do humor e somatizações – uma forma de retirar a pessoa involuntariamente do cenário de exposição a videoconferências em que ela está inserida.

 

O que pode ser feito?

Segundo as psicólogas, a chave para combater os efeitos do Zoom fatigue está na adaptação da rotina do home office. Em um primeiro momento, negociar os horários e a frequência de videoconferências com chefias e colegas de trabalho é essencial para evitar reuniões longas e em excesso. Além disso, diminuir os estímulos cerebrais durante uma videochamada pode ajudar a tornar os encontros menos cansativos.

“Pode ser benéfico deixar desligados câmeras e áudios de quem não está se apresentando ou contribuindo, de modo que o cérebro tenha menos ‘ocupações’ ao longo de uma reunião. Ou, se as pessoas usarem sempre os mesmos cenários, com o tempo, os cérebros dos participantes podem se acostumar com as informações apresentadas nas videoconferências, reduzindo as estimulações mentais: tudo passa a ser mais comum e o foco dado pode ser mais ligado aos conteúdos em si”, observa Bianca.

Outra dica importante é criar um ambiente de trabalho específico dentro de casa.

“O cérebro pode ser aquietado com rotinas. A maioria das pessoas entende que a casa é local de descanso e não de trabalho, mas, na pandemia, com o lar virando subitamente um local de trabalho, não encontramos rotinas para isso. Escolher um local para trabalhar na residência permitirá que, ao sair de lá, se esteja de volta à casa e mais longe do trabalho. Isso é bom também para as outras pessoas que vivem lá conseguirem compreender com mais facilidade a rotina de quem está em trabalho remoto”, explica Elen.

 

Zoom fatigue x Síndrome de Burnout

Incluída pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na versão mais recente da Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde  (CID-11), a Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico caracterizado por estresse crônico e sensação de exaustão por sentimentos negativos devido a condições de trabalho desgastantes.

A princípio, tal fenômeno pode parecer semelhante à Zoom fatigue, mas as psicólogas apontam suas diferenças. “É preciso que os termos sejam usados de modo específico pela gravidade: nem sempre Burnout envolve fadiga por videoconferências. Mas se videoconferências representarem elementos de um ambiente de trabalho nocivo, então podem contribuir à composição de um quadro de Burnout”, esclarece Elen.

 

Por João Gabriel Castro, estagiário de jornalismo da Coordenadoria de Comunicação Social (CCS/UFRRJ).


Postado em 31/07/2020 - 14:32
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