Professora de Jornalismo avalia o consumo de informações durante a pandemia

Segundo Ana Lúcia Vaz,  passar menos tempo nas redes e buscar fontes de informações confiáveis são hábitos essenciais para manter a saúde mental em dia.

 

A desinformação é algo capaz de colocar em risco a vida de muitas pessoas. Por isso, no momento da maior crise do começo do século XXI , além de seguir as orientações dos principais órgãos de saúde, também é preciso estar atento aos fatos.

De acordo com uma pesquisa recente do Instituto Datafolha, a maioria dos brasileiros já se considera bem informada sobre o coronavírus e tem a televisão e a internet (redes sociais e sites de notícias) como as principais fontes de informação. No entanto, o consumo exagerado das informações – nem sempre verídicas, no caso das redes sociais – transmitidas diariamente por esses canais pode trazer problemas à saúde física e mental de quem está do outro lado da tela.

Diante desse cenário, é possível se informar de forma segura e sem excessos? Para responder a essa pergunta, a Coordenadoria de Comunicação Social (CCS) conversou com a professora Ana Lúcia Vaz (Departamento de Letras e Comunicação/ICHS), mestre em Ciências da Comunicação pela USP e doutora em Historia pela UFRRJ.

Confira, a seguir, a entrevista:

Ana Lucia Vaz, professora do DLC/ICHS – UFRRJ (arquivo)

CCS Como você avalia o contexto da ampla divulgação de informações por muitas fontes, seja pelos meios de comunicação (mídia), pelos centros de pesquisa, pelo governo, pelas redes sociais que reverberam as mídias ou que criam suas próprias teorias sobre a pandemia do novo coronavírus?

Ana Lúcia Vaz Em 1644, diante do Parlamento inglês, John Milton defendeu a liberdade de impressão sem censura prévia, com o argumento de que a livre concorrência de ideias nos aproximaria da verdade. Ele estava convencido de que, num ambiente de concorrência aberta, as ideias verdadeiras tendiam a ter mais credibilidade que as falsas. Talvez fosse possível acreditar nisso quando as ideias circulavam na velocidade das charretes. Mas, na velocidade das fibras óticas e dos satélites, a comunicação midiática, principalmente nas redes, circula longe do discernimento racional em que acreditavam os liberais. Uma observação ainda inicial permite identificar três fatores que contribuem para esse estado de confusão informada:

Informação demais: Há pelo menos uma década já sofríamos de overdose de informação. Uma indigestão causada pela quantidade de informação diária muito acima do que conseguimos interpretar. Nos tornamos incapazes de construir uma compreensão abrangente da realidade. Algo que nos desse um mínimo senso de orientação. Quanto mais quantidade, menos qualidade.

Propagação viral: O afogamento no mar de informações desconexas se aprofundou à medida que nos tornamos todos produtores e/ou difusores de informação pública. O sensacionalismo, descobrimos na rede, não é exclusividade do jornalismo, mas uma tendência da comunicação midiática. Nas redes, somos todos sensacionalistas. Uma notícia que causa indignação, medo ou perplexidade tende a viralizar muito mais que uma notícia amena, harmonizadora. Como agentes desta propagação, nos atolamos ainda mais na confusão informativa, no pânico e na ansiedade decorrentes. E ajudamos nossos semelhantes a adoecerem junto.

As fake news: Criar notícias falsas para atender interesses particulares não é novidade. Mas antes da rede, isso exigia comprar ou enganar jornalistas ou fazer acordo com as empresas de comunicação. Hoje, isso se faz através de robôs e operadores de perfis falsos na rede. A eficácia desse sistema depende da disposição dos receptores-distribuidores de se engajarem no processo. Depende de nós, de você que está lendo este texto agora, decidir repassar a informação que recebe.

A pergunta é: o que te faz decidir passar adiante um texto, um vídeo, um áudio informativo? Não tenho respostas, apenas algumas observações iniciais.

Parece que um critério fundamental é: esta informação confirma o que eu penso. Quando a informação confirma meus afetos e pontos de vista, o senso crítico fica em segundo plano. Sempre que posso detonar meus desafetos, idem. Outro critério parece ser o medo: alertas sobre riscos fervilham nas redes num redemoinho assustador de pânico e ansiedade.

A cura dessas duas disfunções exige: checagem de informação e de emoções. A segunda é óbvia: antes de passar adiante uma informação, observe o que ela provocou em você. Vale a pena provocar o mesmo sentimento em outros? Já a checagem de informação é mais complicada. Por um lado, é importante termos profissionais treinados para verificar as informações. Por outro, não é nada seguro delegar ao governo ou, pior, às mega empresas de comunicação, o poder de decidir o que pode ou não ser veiculado. Um sistema de controle da informação verdadeiramente democrático depende de cada um de nós. Cada receptor-distribuidor terá que aprender a avaliar a qualidade da informação que recebe. Protegendo a si mesmo e ao próximo contra a pandemia da fake news.

imagem: freepik

CCS Como o cidadão comum pode se mover dentro desse mar de informações desconectadas em um momento em que ele está se afogando em ansiedades e medos sobre o futuro?

A.N.V. De certa forma, a pandemia do vírus está nos ensinando como um vírus se espalha. Não é por acaso que, quando a informação bomba na rede, dizemos que ela viralizou. O vírus se espalha por transmissão um a um. Somos todos potenciais transmissores. Precisamos nos distanciar para não contaminar e ser contaminados. Contra o vírus da desinformação também precisamos nos calar um pouco, ficar menos tempo na rede recebendo e repassando informação, para não sermos contaminados e contaminadores.

Se precisar ir à rua, use máscara. Se precisar entrar na rede, escolha cuidadosamente suas fontes de informação. Nossa máscara na rede se chama “fonte”: pergunte-se, sempre “quem disse isso”? De onde saiu essa informação? Toda informação que vem sem indicação de fonte deve ser descartada. Se for verdadeira, vai acabar surgindo de novo, com indicação de fonte. Se a informação é assinada por pessoa ou instituição com conhecimento sobre o assunto, vá até ela. Procure o site da instituição ou a página da pessoa nas redes. Veja se confirma a informação. Se nos dermos a esse trabalho, fundamental para manter a nossa sanidade mental e não piorar a de nossos amigos e conhecidos, conseguiremos lidar com poucas informações por dia. Esta é a melhor parte. Porque reduz também o primeiro problema: a overdose.

 

 


Postado em 30/04/2020 - 18:00
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